Há um deus na minha casa dos sonhos - Inez Figueredo

Há um deus na minha casa dos sonhos - Inez Figueredo

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Sinopse

 

A expressão literária de Inez Figueredo apresenta como singularidade a dissolução dos gêneros: assim como não podemos, em geral, classificar seus textos, especialmente os escritos sob forma de prosa, como conto ou romance, da mesma forma não conseguimos demarcar, no plano da construção da mensagem, a fronteira entre a prosa e a poesia. Tudo gravita em torno da própria escritura, implicando, assim, a estranheza de uma aventura da linguagem.

Sua mais recente obra traz, como introito, um título, um subtítulo e duas epígrafes. Vejamos, a princípio, o título: Há um deus na minha casa dos sonhos - o que aí percebemos? Antes de tudo, o império das abstrações, anunciado pelo nume e alicerçado pelo adjunto adnomi­nal. O subtítulo Notícias de Gudá sugere a presença de um talvez protagonista. A primeiraepígrafe, em versos sem assinatura, faz-nos indagar a autoria, devolve-nos ao título: Inclino-me, reverente, / aos vinte e dois translúcidos poentes / que sobre mim deslizaram / ao contemplar um deus na casa dos sonhos e, assim, estranhamos a ausência do pronome adjetivo possessivo- “minha”. A outra epígrafe, de Clarice Lispector, antecipa-nos, por um lado, a escritura quanto à problemática da linguagem: Que mal porém tem eu me afastar da lógica? Estou lidando com a matéria-prima. Estou atrás do que fica atrás do pensamento. Inútil querer me classificar: eu simplesmente escapulo não deixando, gênero não me pega mais; por outro, cirze a própria atmosfera que há-de entranhar-se na composição.

No primeiro capítulo, ganha logo relevo a multiplicidade de vozes narrativas: anuncia-se, no primeiro parágrafo, um ponto de vista interno, com a voz feminina: ...enredo-me, coleante, encipoada nos pensamentos...; no terceiro parágrafo, a passagem ...caminhava sobre o tempo confirma, por elipse, a voz e o ponto de vista; no entanto, mais à frente, tudo se dissolve: Doía-lhe a fôrma da forma, arregaçava-se-lhe a vontade..., pois entra em cena um narrador em terceira pessoa, onisciente e onipresente. O quarto parágrafo, por sua vez, é um longo discurso direto, responsável, agora, pela condução do enredo. Assim, por entre esse ema­ranhado de vozes, singrando metáforas, sinestesias, enumerações caóticas, nós, os leitores, somos, amiúde, inebriados por imagens desconcertantes, vestidas pelo inaugural.

Eis alguns, por certo poucos, elementos-chave, orientadores da leitura de Inez Figueredo.Ao longo das linhas do texto, acariciaremos imagens; conversaremos com Deleuze, com Sêneca, com Valéry, com Huxley, com Joyce; ouviremos rumores de asas, a voz de Paolo Conti, as interrogações de Orlando - e que não são apenas deste; brincaremos com moleques de cera, soltaremos pipas; seguiremos os passos de Gradiva, as sílabas de seus versos, as se­dosas folhas; temeremos a iníqua dos gêmeos, o anátema das ventanias, seus ininteligíveis ruídos; perlustraremos o deserto do verbo - nós, os leitores, iluminados pelos cem sóis dos olhos do Tio Páris: O Fiáto da Luz nas Trevas?. Partamos, pois, à procura de Gudá - este, os seus versos, quase sempre em viagem, quer às sendas de Roma, quer às inacessíveis praias. Tudo escrito num “grosso papel pardo”, tangido pelos ventos, ao longo de toda a narrativa. A ausência como um espetáculo. A paisagem do pássaro azul.

Carlos Augusto Viana

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